Sinos
- Sempre tive medo de sinos... Deve ser por causa dos anos que passei no internato, todas as noites que acordava assustada eles estavam tocando.
Sabe, um internato de freiras pode ser algo bem assustador para uma criança de 7 anos de idade. Existiam algumas partes dele que não me atrevia a ir sozinha. Partes como o corredor que dava para a capela, com as paredes descascadas e quadros de santos em proporções gigantes.
Quando mostrava que estava com medo, algumas freiras me olhavam feio. Não entendiam como eu tinha medo de um lugar “sacro”. A única que me entendia era a Maria Lúcia, digo, Irmã Maria Lúcia. Ela era amiga de infância de meu tio e me conhecia desde pequena, como ela mesma dizia. Por isso, eu podia chamá-la de Tia Lúcia, Tia Malu, Tia Lulu, como bem eu entendesse. Isso quando estávamos só nós duas, na frente dos outros ela continuava sendo a Irmã Maria Lúcia.
Eu não cheguei a conhecer meus pais, eles morreram quando eu era um bebê, em um acidente de carro, por isso nutria pela Tia Malu um sentimento maior: Amor de filha. Eu sei que tenho mãe, e que não foi culpa dela ter partido tão cedo, mas não conseguia evitar. Quando me assustava, estava triste, ou tinha alguma novidade, era para Tia Malu que ia contar.
As crianças não podiam entrar na ala dos cômodos das freiras, mas a Tia Malu tinha me dado uma chave, para ser usada nos casos de emergência. Se eu estivesse com medo, ou alguma coisa estranha acontecesse, eu deveria ir até ela. Engraçado, na época não entendi o que de tão estranho poderia acontecer para que eu entrasse correndo no quarto dela...
- Então acredita que a Irmã já sabia que você desenvolveria esse problema, essas alucinações? Já havia sinais?
- Olha doutora, é difícil falar sobre isso, porque essas coisas que aconteciam comigo na época me pareciam tão reais, e a assustavam tanto quando eu contava. Não quero falar sobre isso agora.
- Mas não foi esse o motivo que te fez sair da casa de seu tio aos 18 anos: Não falar sobre seus problemas?
- Meu tio dizia para esquecer o que tinha acontecido, pelo menos por enquanto. Que esses “fenômenos” que aconteciam comigo deveriam ficar guardados. Mas eu já não agüentava mais, precisava de ajuda, e ele não queria que ninguém me ajudasse, que ninguém mais soubesse. Então eu fugi, e vim falar com você. Quanto tempo faz? Uns 3 anos?
- Isso mesmo, Joana. E devo dizer que já fizemos muito progresso no seu caso. Há quanto tempo você não tem mais alucinações?
- Desde quando comecei o tratamento com remédios. Pode me chamar de louca, mas às vezes sinto falta delas! – disse Joana rindo.
- Por que sente falta delas?
- Porque com elas eu me sentia diferente, especial, como se tivesse sido escolhida. Agora, o vazio é tão grande... E esses sinos, o soar deles não sai da minha cabeça. Ás vezes acho que querem dizer alguma coisa.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
0 comentários:
Postar um comentário