Vocação
Hoje resolvi fazer uma coisa que evitava há tempos: Andar de metrô. Não que eu seja “fresca” ou alguma coisa do gênero, mas algumas pessoas se incomodam quando as observo. Faço isso para ter inspiração. Tenho enfrentado alguns problemas recentemente e isso influencia meu trabalho, o telefonema de Bernardo foi um aviso de que preciso entregar meu serviço rápido.
Logo de cara já vejo alguns tipos interessantes, como a senhora que tricota sem parar, o menino fazendo acordes na barra de apoio, o senhor mal-encarado lendo o jornal e reclamando da alta dos juros, e uma moça com cabelos bem longos, vestindo uma túnica feita de algodão cru. Tenho visto muitas pessoas vestindo essas túnicas ultimamente, apesar de atraírem olhares por onde passam, parecem nem se importar, alienadas, tem o olhar perdido, sem brilho.
Enfim chego à minha estação e logo estou em casa. Sou recebida pelo Chester, meu lindo gato preto com manchas brancas! Adoro gatos, tenho a impressão que guardam segredos, assim como eu.
Me deparo com minha mesa de trabalho toda bagunçada, são esboços e folhas amassadas espalhados por toda a parte. Poucas vezes em minha carreira enfrentei bloqueios, e esse parece ser o pior.
Tudo começou quando eu ainda era menina. O desenho surgiu como a forma mais eficaz de mostrar aquilo que eu via, em meus sonhos, nas pessoas e em mim. Me sentia obrigada a passar aquilo para o papel, num transe quase psicográfico!
Quando fui morar com meu tio, aos 8 anos de idade, levei todas aquelas folhas comigo, dentro de uma caixa de sapatos.
Meu tio tinha muitos amigos, e uma noite dois deles foram nos visitar, bater um papo. Um deles era um pintor, Fernando. Ele me viu com a caixa e perguntou:
- O que tem aí dentro?
- Nada, são apenas desenhos. – Respondi, apertando a caixa contra meu peito.
- Posso ver?
- Acho que você não vai gostar...
- Mas posso vê-los mesmo assim? – Disse isso estendendo a mão em minha direção, com um sorriso no rosto.
Concordei, meio relutante, mas sempre tive vontade de mostrá-los para alguém, o que me impedia era o medo de perguntas.
- Nossa! Augusto, olha isso! Sua sobrinha é uma artista nata! Você já pensou no que vai fazer quando crescer?
- Quero ser veterinária! – Resposta padrão de crianças.
- Sabe o que acho? Vejo muito talento nessas folhas, você deveria aproveitar isso, poderia ser pintora, como eu, ilustradora, que tal?
Olhei para meu tio, abri um baita sorrisão e pronto! Coloquei na cabeça a idéia de ser ilustradora e me achei o máximo! Claro que depois que cresci vi que as coisas não eram bem assim. Levei muita porta na cara, diziam que meus desenhos eram muito soturnos, surreais, até que finalmente recebi um sim, da Ingrid.
Ela estava escrevendo sobre alguém que se perdia nos seus próprios sonhos e adorou toda aquela maluquice.
Foi meu primeiro trabalho, aos 16 anos. Comecei cedo sim, mas já tenho um currículo invejável, trabalhei em vários projetos, desde propagandas até livros infantis.
É irônica a maneira como situações se invertem. Como pode eu ter começado por causa de meus problemas e hoje, quando eles voltam a me assombrar, me sinto tão presa?
domingo, 21 de março de 2010
Assinar:
Postagens (Atom)